HETEROGENEIDADE DISCURSIVA EM PODCASTS DE SAÚDE MENTAL SOBRE O TRABALHO E A PRODUTIVIDADE
Podcast. Saúde mental no trabalho. Heterogeneidade discursiva. Cena de enunciação.
Esta pesquisa se situa no campo teórico da Análise do Discurso de linha francesa e está vinculada à linha de pesquisa Linguagem: práticas textual-discursivas do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem (PPGLin) da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), e tem como objetivos descrever e analisar como se constituem as cenas de enunciação dos episódios dos podcasts Autoconsciente e Psicologia na prática que tratam de saúde mental no trabalho e a sua relação com a produtividade, identificar e analisar os ethos das enunciadoras destes podcasts e de que forma a mídia podcast se insere na constituição da cena e do ethos; identificar e analisar as marcas de heterogeneidade mostrada e os seus efeitos de sentido nos discursos dos episódios a partir do conceito de polifonia de Dominique Maingueneau, e o terceiro objetivo é identificar e analisar os discursos presentes com base nas Formações Discursivas (FDs) das enunciadoras e quais outros discursos provenientes do Outro atravessam esses discursos a partir do conceito de interdiscurso. A motivação para esta pesquisa adveio inicialmente do interesse em trabalhar com a mídia digital podcast, importante forma de comunicação para informação com entretenimento e variadas formas de expressão cuja produção de conteúdo tem crescido significativamente no Brasil e no mundo segundo os dados da Associação Brasileira de Podcasters (ABPOD) e dentre os assuntos tratados pelos criadores de podcasts, o nicho da saúde e bem-estar aparece com apenas 10,27 % de acessos como preferidos dos ouvintes, ficando atrás de outras categorias como notícias, entretenimento, tecnologia, e empreendedorismo, no entanto, acerca da saúde mental, há dados relevantes e alarmantes acerca do adoecimento psíquico relacionado ao trabalho, tais como o fato de que no Brasil há aproximadamente 32% de casos de Síndrome de Burnout e o País ocupa a 2ª posição no ranking mundial desses casos de esgotamento profissional superando países como a China e os Estados Unidos, ficando atrás apenas do Japão que apresente 70% da sua população com os sintomas do Burnout, segundo a International Stress Management Association (ISMA-BR) e Pereira et al (2024). Os transtornos mentais ligados ao trabalho geram um alto número de afastamentos do trabalho. Com isso, no Brasil, no ano de 2024 ocorreram cerca de 472328 solicitações de licença por questões de saúde mental tais como Ansiedade, depressão, Transtorno bipolar e Stress grave e Síndrome de Burnout e em 2025 foram 546254 afastamentos (Ministério da Previdência Social, 2026), demonstrando que o adoecimento por saúde mental decorrente do ambiente de trabalho é um problema de saúde pública no Brasil e no mundo. Ademais, conteúdos de saúde mental são necessários como recursos de reflexão e aprendizagem no cuidado com a saúde mental no trabalho e prevenção de agravos dos sintomas de sofrimento psíquico. Ademais, conforme expõe o site Brazil Health, existe ainda a dificuldade de acesso aos serviços de Saúde mental, logo, a presença de profissionais de saúde mental produzindo podcasts possibilita um maior contato do público com o conhecimento nesta área e que pode ser aplicável. O estudo justifica-se também pela ausência ou quase ausência de dissertações e teses sobre podcasts que abordam sobre a saúde mental, pois durante a busca o que se verificou é a produção acadêmica de Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC), blogs e sites e artigos científicos, mas que tratam mais do período de saúde mental durante a pandemia por COVID-19. Desta forma, a presente pesquisa vem contribuir para esta lacuna no campo da pesquisa do conhecimento acadêmico. Para a análise desta pesquisa, o referencial teórico é constituído por uma parte sociológica para entender o universo laboral a partir das teorias que envolvem o modo de produção, formatos e relações de trabalho da Sociedade em Rede ou Sociedade da Informação segundo os sociólogos Daniel Bell(1977) e Manuel Castells (2016), e outra parte e mais predominante para os interesses da análise, a teoria da Heterogeneidade Discursiva da Análise do Discurso de linha francesa, com as contribuições de Eni Orlandi (2015) e Michel Pêcheux (1997) acerca da Formação Discursiva e Formação Ideológica, e principalmente, o teórico Dominique Maingueneau (2008, 2011), com a aplicação das suas teorias das tipologias da Formação Discursiva (Identidade, Temáticas nas categorias Entidades, Acontecimentos, Cenários e Os nós, e Formações Discursivas plurifocais.); Heterogeneidade mostrada e as suas marcas do discurso do outro (Discurso relatado com citações diretas e indiretas, discurso indireto livre, e as formas de polifonia tal qual a ironia, a pressuposição, o metadiscurso do locutor, e a parafrasagem, os introdutores do discurso direto, discurso direto livre, enunciador genérico, a realização do discurso indireto por meio do verbo dicendi seguido da conjunção integrante que , formas híbridas e resumo com citações; a Heterogeneidade Constitutiva por meio do entendimento do conceito da Interdiscursividade que envolve a primazia do interdiscurso sobre o discurso, competência discursiva e semântica global, e além da heterogeneidade discursiva, trabalhamos com a teoria da cena de enunciação constituída pela cena englobante, cena genérica e a cenografia, e ainda, o ethos das enunciadoras que podem ser classificados como ethos coletivos, abertos, e das dimensões categorial, experiencial e ideológico, de acordo com Dominique Maingueneau (2014, 2020). Quanto aos seus aspectos metodológicos, é uma pesquisa qualitativa de objetivo exploratório, descritivo e explicativo, de método observacional e tipo de coleta bibliográfica para a construção do referencial teórico e principalmente documental ao trabalhar com material áudio digital para a etapa de análise dos resultados. O procedimento de seleção dos episódios de podcasts se deu inicialmente pela busca no site podtail para consultar quais os podcasts de saúde mental mais ouvidos no Brasill, e tal busca se deu em dezembro de 2023. Somado a isto, teve critérios de seleção iniciado em janeiro de 2024 na própria busca da plataforma Spotify com palavras-chave relacionados à saúde mental, ter nota de avaliação entre 4,9 a 5,0 e ter a partir de 1000 ouvintes. Os áudios foram ouvidos e o tema foi escolhido com base nas regularidades e o método de análise consiste na própria Análise do Discurso, conforme orienta (Orlandi, 2015). Os resultados desta pesquisa ainda estão em andamento, e até o presente momento verificou-se a cena de enunciação envolvendo cena englobante, genérica e as cenografias dos podcasts Autoconsciente e Psicologia na prática, e os ethos das enunciadoras Regina Gianetti ( host do Autoconsciente) e Alana Anijar (Host do Psicologia na prática ) e foi realizado uma análise comparativa entre as duas cenografias e os éthe identificados. A cena englobante são os discursos psicoterapêutico e de bem-estar, a cena genérica é o próprio gênero oral e mídia digital podcast, e a cenografia do Autoconsciente possui uma estrutura organizacional complexa em que apresenta diversas cenas em formas de relato dentro do episódio com diferentes enunciadores, e a cenografia do Psicologia na prática se assemelha a uma conversa da locutora com os seus coenunciadores em forma de consulta psicológica, mas variando o tom pessoal com o clínico. Dentre os ethos identificados, as duas enunciadoras possuem o ethos monologal, e a Regina Gianetti se destaca pelo ethos de profissional de saúde mental da meditação, concomitante ao ethos jornalístico ao se declarar “Repórter da alma”, e na dimensão da cena genérica ela tem o ethos narrativo e quanto a prática discursiva, o ethos didático e na dimensão experiencial, um ethos calmo e de voz meditativa, e um discurso bastante planejado. Já, a enunciadora Alana Anijar tem o ethos profissional de psicóloga, e também de empreendedora, e na cena genérica possui o ethos de apresentadora midiática, na prática discursiva um pouco do ethos didático, porém com menos ênfase. Na dimensão experiencial, apresenta um ethos de pessoa equilibrada, flexível e tom da voz animado e espontâneo e também foi encontrado ethos da dimensão extradiscursiva referente ao campo da sua vida pessoal ao ser mãe e esposa, dentre outros. A característica da espontaneidade e o método clínico da psicóloga de produzir um tom pessoal sobre a sua vida e de pessoas que convive para exemplificação dos temas permitiu a identificação desses ethos de dimensão extradiscursiva. Ambas enunciadoras também apresentaram um ethos ideológico em seus discursos.