LITERATURA NEGRO-BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA: A ESCREVIVÊNCIA DE CAROLINA MARIA DE JESUS PARA O LETRAMENTO RACIAL EM UMA ESCOLA DE ENSINO MÉDIO DO MUNICÍPIO DE MULUNGÚ/CE
Literatura negro-brasileira contemporânea; Carolina Maria de Jesus; escrevivência; currículo escolar e letramento racial; E.E.M.T.I. Milton Façanha de Abreu, de Mulungú/CE.
A literatura negro-brasileira contemporânea deve ser compreendida de forma abrangente como uma produção literária, estética e política que não apenas tematiza a negritude ou a luta antirracista, mas que se anuncia a partir do lugar de fala e memória das subjetividades negras, reivindicando o protagonismo de suas próprias histórias, narrativas e pertencimentos. Diferentemente de textos que reduzem o(a) sujeito(a) negro(a) a um mero objeto de estudo ou alegoria civilizacional, essa literatura se consolida por sua autoria própria e pelo compromisso intransigente com a desconstrução de estereótipos coloniais de racismo e desumanização. Diante disso, a inserção ativa dessa literatura no Ensino Médio representa uma das vias mais potentes para a promoção do letramento racial, retirando as subjetividades negras dos recorrentes papéis de subserviência ao brancocentrismo universal e agenciando o seu acesso a espaços culturais, políticos, históricos e epistemológicos ainda não devidamente descortinados pelo protagonismo de coletivos negros. Diante desse cenário, a presente pesquisa dedica-se a analisar como essa produção literária pode contribuir efetivamente para a formação crítica de estudantes do Ensino Médio da Escola Estadual de Ensino Médio em Tempo Integral Milton Façanha de Abreu, localizada em Mulungu, Ceará. Parte-se da premissa de que as questões estruturais do racismo e a reticência quanto à autodeclaração no ambiente escolar refletem processos profundos de invisibilização identitária, o que pode ser mitigado pela aproximação sistemática com a literatura negro-brasileira contemporânea. Supõe-se que, ao atuar como um espelho de reconhecimento e uma ferramenta de letramento racial, essa literatura favorece o fortalecimento do pertencimento étnico- racial e estimula a consciência crítica dos(as) discentes. Para fundamentar essas discussões, o estudo articula três categorias centrais: a literatura negro-brasileira contemporânea, à luz de autoras como Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo; a crítica às diretrizes coloniais do currículo e a imprescindibilidade da promoção do letramento racial, a partir de concepções de teóricos(as) como Lélia Gonzalez e Kabengele Munanga. Metodologicamente, o trabalho desenvolve-se em três etapas subsequentes: primeiro, um levantamento bibliográfico acerca do estado da arte e das transposições didático-curriculares a propósito da literatura negro-brasileira contemporânea; segundo, um estudo de caso com intervenção pedagógica pautada na leitura mediada da obra Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, por meio da qual se pretende confrontar a metáfora da favela com a realidade presente e a validação da escrevivência como prática literária do conhecimento de si e da própria história; e terceiro, a realização de rodas de conversa, expressões artístico-literárias e a aplicação de questionários semiestruturados, a fim de avaliar as percepções dos(as) estudantes sobre as suas experiências e percepções em torno do racismo após o trabalho com a obra da autora.