ANSIEDADE E DEPRESSÃO NO DISCURSO CRISTÃO: A INTERDISCURSIVIDADE EM PREGAÇÕES CATÓLICAS E EVANGÉLICAS
interdiscurso; saúde mental; pregações cristãs; discurso religioso; discursos constituintes.
Considerando o aumento da incidência dos transtornos mentais, a relevância social do discurso religioso no contexto brasileiro e a lacuna existente nos estudos linguísticos que articulem saúde mental e religião, esta pesquisa tem como objetivo compreender como os discursos sobre ansiedade e depressão são construídos em pregações religiosas cristãs e investigar quais efeitos de sentido emergem ali. Para tanto, analisamos o espaço constituído pelos discursos católico e evangélico, com foco nas relações interdiscursivas que atravessam esses dizeres. O corpus é composto por oito pregações cristãs, selecionadas de modo a garantir proporcionalidade entre as temáticas da ansiedade e da depressão e entre os segmentos católico e evangélico, publicadas em canais dessas vertentes na plataforma YouTube. A pesquisa adota uma abordagem qualitativa, de natureza descritivo-interpretativa, fundamentada teoricamente na Análise do Discurso de linha francesa, com base nas contribuições de Dominique Maingueneau (1995, 1997, 2000, 2007, 2008, 2010, 2015), com destaque nas noções de primado do interdiscurso e de discursos constituintes. Parte-se do pressuposto de que os discursos religiosos sobre saúde mental não se constituem de forma isolada, mas se inscrevem em uma complexa rede interdiscursiva, na qual o discurso religioso se articula a outros discursos, tal como o médico-psicológico, produzindo, nessa interação, efeitos de sentido específicos sobre o sofrimento psíquico. Para a compreensão do funcionamento desses enunciados, foram caracterizados o gênero discursivo e a cena enunciativa, identificadas e descritas as regularidades linguístico-discursivas mais recorrentes, mapeadas as marcas de outros discursos e examinadas as modalidades pelas quais as relações interdiscursivas se estabelecem, seja por aliança, aparente neutralidade ou oposição. Os achados revelam que o discurso religioso atua como instância de legitimação dos sentidos na abordagem da ansiedade e da depressão, ancorando-se na autoridade bíblica desde a abertura da cena enunciativa, compondo a cenografia de ambos os segmentos religiosos e produzindo efeitos de verdade e prescrição. A análise do corpus evidencia que o discurso outro é mobilizado de forma seletiva, subordinada ao enquadramento religioso. Também revela diferenças de cenografia e de tom enunciativo entre os segmentos católico e evangélico, embora, em ambos, se preservem elementos como a assimetria entre pregadores e público. Observa-se, nas análises, que a depressão é mais frequentemente significada como doença, enquanto a ansiedade tende a ser mais associada a problemas espirituais. As relações interdiscursivas identificadas demonstram que o discurso religioso se articula a outros discursos por meio de relações de aliança, neutralidade aparente e oposição, reconfigurando saberes oriundos, sobretudo, dos posicionamentos médico-psicológico, científico e capitalista. Nessas interações, confirma-se a centralidade do discurso religioso, como um discurso constituinte, na regulação dos sentidos atribuídos à ansiedade e à depressão.