"A CRIAÇÃO DA DECRIM/CE E AS AMBIGUIDADES NA RELAÇÃO ENTRE POLÍCIA E POPULAÇÃO NEGRA FRENTE À DISCRIMINAÇÃO RACIAL NO CEARÁ”
Violência racial; Polícia Civil; Estado; Antropologia; Ceará
Esta dissertação analisa a política de enfrentamento à discriminação racial no estado do Ceará a partir da criação da primeira Delegacia de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, Religiosa ou Orientação Sexual (Decrim), unidade da Polícia Civil voltada à apuração de delitos dessa natureza. Partindo da premissa de que o Estado opera como instância privilegiada de gestão das vidas e dos corpos, produzindo e regulando desigualdades raciais, o trabalho examina de que modo a Decrim pode ser percebida não apenas como uma unidade administrativa, mas como uma zona de contato entre populações e tecnologias de governo. A pesquisa articula análise documental e observação etnográfica, incluindo interlocuções com os agentes da delegacia e com atores institucionais vinculados à segurança pública no mencionado estado. Esse fazer etnográfico é atravessado ainda pela dupla inscrição da autora, simultaneamente, pesquisadora e funcionária do estado analisado, o que confere caráter autorreflexivo ao estudo. Nesse enquadramento, foram examinados os fluxos organizacionais da unidade policial, as narrativas dos interlocutores e dados sobre a violência racial no território cearense, com atenção aos modos pelos quais esses crimes são registrados, classificados e conduzidos no âmbito investigativo. Os resultados apontam para uma atuação marcada por ambivalências: se, por um lado, a delegacia especializada se insere em um movimento de reconfiguração estatal e promoção de letramentos de policiais a partir das concepções dos direitos humanos, por outro, permanece atravessada por limites históricos estruturais que impedem a justiça racial. Conclui-se que a delegacia se constitui como um terreno de disputas simbólicas em torno das populações negras. Nesse contexto, a promessa de uma polícia antirracista tensiona permanências biopolíticas nas margens do Estado.